Carta a Gilberto Gil
André Vallias

Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2009

Caro Gilberto Gil,

ontem à noite vivenciei um dos “acontecimentos” musicais mais intensos e emocionantes da minha vida: aquilo que um pensador alemão chamou de Ereignis (leia-se 'er-Áig-nis') e que talvez só se possa verter em português valendo-se daquela palavra que a Igreja sequestrou do dia-a-dia – ‘Advento’ – irmã milionária do depauperado ‘evento’, aquela aragem purificadora que livra a alma das folhas secas. “O acontecimento acontece” dizia o mesmo pensador, o advento advem, e tudo o que se pode dizer é pouco diante da ventania que varreu o Espaço Tom Jobim ontem, no show de lançamento do CD AfroBossaNova, de Paulo Moura e Armandinho!
As lágrimas, que não costumam acontecer nos olhos deste inveterado paulistano que te escreve, desceram despudoradas pela face. E o teatro veio abaixo!
Trata-se, na minha leiga opinião, do mais denso e significativo comentário (ou melhor, palimpsesto de comentários – um Talmud!) já feito sobre a música de Tom Jobim.
O maestro Paulo Moura na clarineta, Armandinho no bandolim e guitarra baiana, Gabriel Improta ao violão, e três jovens percussionistas que Paulo mandou buscar nos terreiros da Bahia, e pronto: um périplo musical extemporâneo, transbabélico e travesso através do cânone da bossa nova, ziguezagueando por um século de estilos e tradições musicais, que foi da África a Ravel, de Stravinski ao rock progressivo, do chôro ao trio elétrico, do samba de roda ao jazz, do baião à música experimental, em arranjos de uma sofisticação tão impressionante, de uma artesania tão complexa, que cada música se transformava numa esfinge amorosa, seduzindo os ouvidos numa dança de véus surpreendente: “decifra-me que eu te devoro de qualquer jeito!” Nunca a música instrumental de alto repertório foi tão envolvente e corpórea. O grand finale foi o gesto-surpresa do maestro, chamando o público à participação: e todos cantaram “Chega de Saudade” em perfeita afinação. O sexteto deixou o palco sob uma saraivada interminável de palmas, urros e “bravos”! E eu, num hiperbólico arroubo de entusiasmo, pensei cá com meus botões: a bossa nova só foi inventada para que um belo dia alguém aprontasse isso com ela!

Aquele abraço,

André Vallias